Um pessoa voltando as 5 da manhã pra casa, não com o habitual medo de sempre, mas com a tranqüilidade de uma criança… Ela vê dois “elementos suspeitos” ((Leia: manos nóias, pra não ter que falar o que realmente aquelas porras eram ¬¬)) com roupas velhas e sujas. Atravessa a rua e para por alguns minutos em frente a uma empresa. Ela fuma o seu último cigarro da noite e pensando que o perigo já passou, retoma sua caminhada, afinal, ela já está tão perto de casa. Mas os “elementos” só fizeram dar a volta no quarteirão. E a pessoa já não tem os braços e nem as pernas vivos. Tudo trava. E a única coisa que ela consegue fazer é entregar aos “elementos” as coisas que com o esforço do trabalho conseguiu comprar, até mesmo as roupas que vestia. Não sobrou nenhum documento, cartão do banco, celular ou bolsa. Com medo, ela se deita atrás de um carro, semi nua, com frio e chorando. Com os membros ainda quase nulos, depois de muito esforço, ela se levanta e nem se lembra direito como chegou em casa. Ela só chora. Ela só deseja morrer.
E essa pessoa se parecia tanto comigo, que às vezes me faz questionar a mim mesma: Eu sou tão ruim assim pra merecer tudo isso?
E me faz pensar no que faz uma pessoa chegar a enlouquecer. A rua oferece seus perigos, mas de dentro do seu carro com os vidros fechados e o som ligado é impossível de saber o que aquela pessoa solitária passando na calçada esta balbuciando e o porquê de tanta gesticulação. Essa semana mesmo um louco passou do meu lado falando de Big Brother e Roberto Marinho. Até os loucos viram escravos da mídia. Acho que qualquer tipo de escravidão leva a loucura. O bom dos loucos é que mesmo sabendo que eles não desejam ser assim, levam a vida como eles querem, e é por essas e outras que eu sempre os considerei os mais responsáveis. Quando um louco sai dando porrada, quebrando tudo, sempre usam a justificativa: “Ah, ele é louco”. E quando é alguém normal? O que é ser normal? Assistir Big Brother? Tudo é tão relativo…
E deve ser pela mesma razão que ficamos felizes com as pequenas coisas do dia-a-dia. Como aquela sensação estranha quando vemos alguém bonito na rua ou encontramos uma moedinha. E o fato de estar irada com os dois filhos da puta, não me faz sentir menor, inferior. Eu já passei por tantas coisas e nem por isso quero ser chamada de vencedora ((eu sou preguiçosa e acomodada, acostumada a ver e a sentir)). Mas eu mereço ser chamada de sobrevivente. A minha alma vive em perigo constante e nem é porque eu dou sorte ao azar. É porque é assim que tem que ser. Quando um soldado vai pra guerra geralmente acredita na vitória e é isso que faz ele vencer. Se ele vai com o medo do fracasso ele pode morrer. Agora se ele se preocupa em dar o melhor de si depois de tentar vencer, mesmo que acabado, escondido e machucado no chão enquanto corpos caem por todos os lados, ele é um sobrevivente. E isso tem a sua beleza… Por mais que perca a guerra, ele volta pra casa, família e amigos. O vencedor vai se vangloriar pro resto da vida, por além de ter voltado vivo, volta com uma medalha na farda. ((Às vezes as coisas materiais nos deixam tão seduzidos e vulneráveis…)) E então, já não é mais orgulho pelo que se é, é orgulho pelo que se tem. O que te faz melhor: uma etiqueta cara ou seu prato de arroz com feijão? Trabalhar é preciso, viver é arte. Viver não é preciso, e nem sempre faz sentido. Mas já que cá estamos trabalhar, além de ocupar a cabeça, trás méritos, e te dá a melhor sensação do mundo quando você compra uma coisa que realmente quer. Você batalhou por aquilo, não precisou roubar e nem pedir pro papai. E arrecadar esse tipo de mérito não te faz o vencedor dono da medalha. Te faz ser alguém que sempre busca mais e mais… Mas isso tudo é teoria da minha essência. E quando eu digo que me falta muito desaprender a teoria, é porque é verdade. Fugir da teoria pode me fazer errar, mas me dá a dádiva de aprender. A prática me cansa e eu ainda sou preguiçosa…