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Eu acho que, agora que tudo mudou, gosto mais da Regi de antes. A Regi de antes abaixava a cabeça pra tudo, era amável, era carinhosa. Não que a Regi de agora não seja, mas ela mudou um bocado. Ela ta agressiva, rancorosa, chorona ((Oh, novidade!!)), porém vingativa. Quase uma Soraya Montenegro menos corajosa. Ela agora sabe responder a altura, ela não se cala mais diante das situações, faz cara feia pra tudo e não volta com remorso pra casa. Ela volta um veneno. E é aí que mora o perigo.

O problema é que as duas Regi’s andam brigando muito entre si. Consigo escutar nitidamente o diálogo endiabrado de uma, com o diálogo angelical da outra. A endiabrada é uma puta: sempre exige que suas vontades sejam feitas e que ela saia lucrando. Ela quer gritos, ataques de fúria, objetos se partindo no chão, palavras grosseiras e atitudes exatas sem medo do estrago q elas possam causar. A outra, a sonsa, não tem vontades, tem apenas sonhos. Principalmente de que eu me volte apenas pra ela novamente, que eu seja aquela que ouve e vai chorar num canto, que se conforma com a forma física, que sempre pensa nos outros antes de qualquer coisa. Sometimes acho essa Regi tão imbecil, tão cafona, tão sem graça, um verdadeiro nada.

Mas quando essa Regi consegue falar um pouco mais alto ((talvez enquanto a outra se recupera da extrema força que faz pra gritar)) ela ainda me faz ser uma pessoa boa. Aquela que a maioria gosta: sorridente, animada, prestativa, carinhosa. E, diga-se de passagem, eu sou melhor sendo boa do que sendo má. Eu não meço consequência quando isso acontece, mas talvez porque não precise. Ser má pra mim é algo como responder a altura, descontar raiva numa pequena proporção, dar murro em ponta de faca, chorar torcendo a boca ((quando a gente chora de raiva, manja?)), poucas palavras que causem efeito em quem ouça, pequenos delitos. Nada de muito ilegal. Ta bom, assumo: a Regi Má é quase uma sonsa, mas é tão diferente da Regi que estou acostumada a ser, que se torna o extremo do oposto.

O que fica de tão igual é que as duas sofrem. Uma delas um pouco mais. A Regi Boa. A Regi que eu gosto de ser, não a Regi a qual sometimes me obrigo a ser. Mas sinto que às vezes é tão necessário com algumas pessoas… Ultimamente era apenas com uma pessoa… Não posso afirmar, mas acho que essa ultima pessoa ao conhecer a Regi Má saiu com todas as más impressões possíveis. Embora a Regi Boa estivesse de olhos e coração encharcados, a Regi Má queimava minhas veias. Gritei, xinguei, ofendi, me vinguei ((de maneira boba, mas suficiente)). E pela primeira vez na minha vida não me arrependi de nada. A Regi Boa entendeu o que aconteceu e não me puniu com choros e dores intermináveis ((nem a garganta inflamou, a dor física dessa vez foi causada por oooooutro ângulo, que a gente nem comenta muito pra num ficar feio pra mim, pois sou da seguinte opinião: homem pra bater em mulher tem que ser macho. Então ele não é a mariquinha que eu pensava que fosse)).

Mas marcas roxas não mudam a personalidade da Regi Boa. Ela vê as marcas e sente pena, mas acha bem feito. Para ela tudo é aprendizado. A Regi Má olha pras marcas e a respiração até muda. É por essas e outras que eu ainda prefiro, mesmo me fudendo, tomando na cabeça direto, tomando no meio do olho do meu cu ser a Regi Boa. A Regi Má é inconsequente por demais. Maybe nem tanto como disse anteriormente. Mas quando estamos acostumados a ser alguém, qualquer vento nos causa uma mudança brusca. A Regi Má não precisa aprender mais nada, ela já tem os 27 anos de estudo. Estudou cada ano da minha vida pra se manifestar quando ela achasse que era a vez dela. E ela é a bola da vez, enquanto a Regi Boa agora talvez esteja aprendendo com ela. A Regi Boa só precisa se lapidar um pouco. Quando eu disse pra Val que ela era meu diamante, ela retrucou dizendo que eu era a platina dela, maleável, dúctil e resistente a maioria dos ácidos. A Regi Boa concorda em partes com isso. Em partes porque ela ainda não aprendeu a lidar com um dos ácidos: Veneno. A Regi Má tem tirado isso de letra, faz do veneno sua droga alucinógena preferida. Bebe e destila. Suga o veneno alheio apenas pelo prazer de provar pra Regi Boa que ela é a babadeira, que ela aguenta. E a Regi Boa acaba tomando de tabela. Sometimes ela bebe veneno porque quer morrer e chegar no fundo do poço. Sometimes, bebe apenas por consequência. Mas a Regi Boa não vê lá muita graça em veneno. Talvez porque ela sente um pouco de inveja da Regi Má…

O que a Regi Boa mais deseja é se entregar, se render. Tudo que ela queria era morrer, pena que ela se tornou muito medrosa e toma um cuidado do caralho com a morte. Toma cuidado com sustos e traumas. Mas é como eu sempre digo: a morte doeria bem menos, então porque não tentar? O que são cinco minutos de agonia comparados a uma eternidade de silêncio? E esse o conselho que eu dou a ela todos os dias em que eu me sinto só. E sem essa de que é pecado. Pecado é deixar alguém como a Regi Boa viva num mundo deste. Pretensiosa? Não nem um pouco, apenas aguardando merecimento, e nem é um anel de brilhante ou coisa do tipo. Certas vezes um sorriso ou um abraço bastam. Um telefonema bastaria. Mas nunca nada vem como ela espera.

E é tão difícil acreditar em alguém quando todos aqueles pra quem você entregou seu coração te desapontam. Mas em algo ((alguém)) temos que acreditar, né?

A Regi Má tem desejos. A Regi é Boa tem sonhos. Belchior disse que “viver é melhor que sonhar”. Acho que nenhuma das duas ainda manifestou vontade de continuar a viver. A não ser que viver seja apenas isso e eu ainda não sei. Desejar faz parte de viver? Eu vou ser a Regi Má então? Forever? Nem fudendo. Eu tenho certeza de que ainda sou e prefiro ser a Regi Boa…

Ouve: Como Nossos Pais ((Belchior))

“…Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa…

Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado prá nós
Que somos jovens…”

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