Ontem quando a Orion me viu, a primeira coisa que ela me perguntou foi: “Ta tudo bem? Você tava chorando? Ta com cara de triste…”. Não precisa ser muito inteligente pra ver que uma maquiagem preta ta levemente borrada já no inicio da noite, mas confesso que fiquei em silêncio por alguns minutos depois do que ela me perguntou. Logo eu, que vinha me notando uma pessoa amarga, que tinha parado de chorar por bobagem, andava me sentindo forte. Não adianta querer mudar de personalidade: é assim que eu sou. Eu sou chorona, eu sou bobona, eu sou desanimada. Eu não acredito na felicidade a dois palmos do meu nariz. Tem que ser mais de perto, no máximo meio palmo. Um já é distante. É, eu sei que é aí onde mora meu erro, mas não dá pra ficar fingindo mais, saca? Eu sofro mais por ser personagens do que nessa vidinha sem graça que eu levo. Eu não tenho mais esperança de que tudo mude. Nothing’s gonna change my world. E das duas uma: ou eu aprendo a lidar comigo mesma e me aceito, ou vou viver sempre brigando com os espelhos d’água.
Os meus amigos são os melhores. Pra alegria. Porque quando eu me vi no chão mais uma vez, com um novo baque, nenhum deles, sei lá… Ficou perto de mim. Como o coelho da Alice, estão sempre correndo, sempre fazendo algo. Meu melhor amigo riu de mim. E pra não dizer que não existe dor maior, teve gente que não acreditou em mim. Houve quem ficasse neutro, ou fingiu ficar… E é estranho que no meio de todas essas coisas, as palavras mais sabias que eu ouvi foram de um quase desconhecido. Quase desconhecido nada. Lembra quando eu falei que levo cinco minutos pra amar alguém? Então corrigindo: Não é um quase desconhecido, é um amigo lindo que eu amo, mas que tenho pouco contato. Não que vá deixar de amá-los, isso jamais. Mas alguns tipos de sentimento se transformam. Tanto pra melhor quanto pra pior…
E ta tudo tão ruim… O nó que ta na minha garganta é o pior que eu já senti até hoje. Tanto que já virou física. Já chorei tanto, já torci tanto a boca, já tentei até falar com Deus, mas como sempre descubro que ele é uma mentira. É de praxe né? Todo final e começo de ano sempre acontece uma bosta. E como desgraça pouca é bobagem…
E me faz pensar que o pior tipo de sentimento não é o ódio. Odiar é até bom, esquenta o corpo, movimenta os músculos… O pior tipo de sentimento é a ingratidão. E ela não está presente só quando alguém que você ama te sacaneia, até porque quando é assim até cai bem, gera ódio, e ódio ajuda a não errar novamente. Mas quando a ingratidão vem de quem você menos espera, dói. Quando te deixam sangrando no chão, dói. Qual a diferença? As pessoas na minha vida sometimes nem percebem esse tipo de coisa. Lembra quando eu falei sobre tornar tudo automático? Querendo ou não, meu colo, meu carinho, minhas palavras são automáticas nas vidas das pessoas. Acham que sou um robô então? Que não precisa que nada seja recíproco? Então os novos ventos e paisagens mudam o rumo e a forma de pensar. E o robô vira só uma lata velha sem utilidade. Há quem finja que se importa, mandam mensagens e até ligam, mas mesmo assim não perguntam como você está. Contam quão a sua vida ficou extraordinária, com pontas onde o papel principal deveria ser seu por ter apoiado e ajudado tanto. É aí que só o destino ganha méritos e tudo que te resta é procurar uma nova pessoa pra repetir a mesma historia de sempre, antes que o ódio te domine.
Eu disse que odiar é bom? Depende até que ponto ele se manifesta… E a vontade de viver mais um dia é quase nula. Ormuz e Arimã.
Ouve: Pavão Misterioso ((Oswaldo Montenegro))
“Pavão misterioso
Nesse calda aberta em leque
Me guarda moleque
De eterno brincar
Me poupa do vexame
De morrer tão moço
Muita coisa ainda quero olhar…”

